Domingo, 17 de fevereiro de 2019
:
EDITORIAS
Agncia UDOP | Acar | Biodiesel | Cana-de-Acar | Combustveis Fsseis | Diversas | Economia
Energia | Espao Datagro | Etanol | Frum de Articulistas | Opinio | TV UDOP | ltimas Notcias
Frum de Articulistas Aumentar a letra    Diminuir a letra
Verdades e mitos sobre o carro eltrico  

09/02/2018 - O setor automotivo mundial vem sendo bombardeado por uma srie de notcias que apontam para a substituio de veculos movidos por motores a combusto interna (VCI) por veculos eltricos (VE). No futuro, pases como Reino Unido (2040), Frana (2040), Alemanha (2030), Holanda (2025), Noruega (2025), Sucia (2019) e ndia (2030) devero parar de produzir e importar VCI. A tendncia mundial parece ter ecoado at mesmo no Senado Federal brasileiro, onde tramita o projeto (PLS 304/2017) que proibiria a venda de automveis novos movidos a gasolina, GNV e diesel a partir de 2030. Motores a etanol e biodiesel, inicialmente, poderiam seguir em produo, ao lado de opes eltricas. A partir de 2040, pela proposta, seria banida inclusive a circulao de veculos movidos a combustveis fsseis. Mas ser que os veculos eltricos so realmente a melhor opo e iro substituir os veculos movidos a combusto interna? A seguir so discutidos alguns pontos fundamentais que esclarecem os conceitos relacionados tecnologia do carro eltrico.

Carros eltricos no emitem gases de efeito estufa. MITO.

Ao considerar a opo por VE um dos desafios mais urgentes a serem avaliados, principalmente para os tipos que dependem exclusivamente de uma fonte externa de energia eltrica, o de gerao de eletricidade para suprir a demanda que seria imposta. Com exceo de pases como Brasil, Canad e Noruega, cujas matrizes eltricas so caracterizadas em grande parcela por fontes renovveis, a eletricidade produzida pela maior parte dos pases no mundo altamente dependente de recursos no renovveis. Logo, um VE, apesar de no apresentar emisses diretas locais pela combusto no motor, no renovvel e seu impacto ambiental vai depender das fontes utilizadas para gerao da eletricidade que o abastecer. Alm disso, importante ressaltar que os processos de produo do chassi do carro e da bateria tambm geram gases de efeito estufa (GEE).

Para a melhor compreenso e anlise dos impactos ambientais causados pelos diferentes motores, tais como de combusto interna, hbridos e eltricos, necessrio avaliar o ciclo de vida do veculo, ou seja, considerar toda a cadeia produtiva das peas, componentes e combustveis, at o uso final no motor. As emisses por km rodado apresentadas na Figura 1 demonstram os impactos gerados por um VE puro (no hbrido) com uma bateria alimentada por eletricidade gerada pela matriz caracterstica de cada pas. Em poucos casos seria atingida uma meta de reduo do impacto de 50% em relao s emisses da gasolina. Considerando a mdia mundial, a reduo seria de apenas 23% utilizando-se um VE. Na direo oposta, o maior mercado de VE do mundo, a China, que atingiu 336 mil novos registros em 2016 (IEA, 2017), se caracteriza por emisso de GEE superiores da gasolina.


Figura 1. Emisses de gases de efeito estufa por km rodado com veculo eltrico a bateria, considerando a matriz energtica de cada pas.


O Brasil j possui uma soluo adequada para a reduo de emisso de gases de efeito estufa: o etanol. VERDADE.

O Brasil vive uma realidade diferente daquela dos pases europeus. A mistura de 27% de etanol anidro na gasolina (gasolina C) e a presena dos carros flex, que podem utilizar etanol hidratado, garantem uma demanda significativa por biocombustveis. Em 2016 o consumo de etanol hidratado totalizou 16 bilhes de litros e o de gasolina C 43 bilhes de litros. A produo total de etanol foi de 28 bilhes de litros no mesmo ano (EPE, 2017). Adicionalmente, a frota nacional de VE de cerca de 5.000 (incluindo carros puramente eltricos e hbridos), 20 vezes menor do que a mdia mundial.

No caso do Brasil, como apresentado na Figura 2, todas as opes alternativas gasolina (VCI flex, VE a clula de combustvel e a bateria) apresentam redues significativas em suas emisses de GEE. Veculos flex abastecidos por etanol apresentam emisses de GEE semelhantes s de veculos eltricos que utilizam uma matriz energtica renovvel (baseada principalmente em energia hidroeltrica). Diante desse cenrio, considerando questes ambientais e questes de infraestrutura do pas (usinas de lcool e postos de abastecimento j existentes), no haveria razo para a substituio de VCI por VE. Uma melhor opo seria a utilizao de VE a clula de combustvel abastecido com etanol, para o qual se estima uma reduo de 73% na emisso de GEE, beneficiado pelo baixo impacto do biocombustvel de cana-de-acar e pela maior eficincia por km rodado.


Figura 2. Emisses de gases de efeito estufa por km rodado com veculo eltrico a bateria, flex com combusto interna usando etanol de cana-de-acar ou gasolina, e a clula de combustvel usando etanol.


O armazenamento de energia por baterias um grande obstculo do carro eltrico. VERDADE

Alm de depender do tipo de fontes de recursos utilizados para a gerao da eletricidade, o discurso que defende as vantagens de VE em relao ao VCI apresenta mais um desafio: a produo e o descarte das baterias.

Devido aos avanos tecnolgicos e s possibilidades de menores custos e melhoria de desempenho, as baterias de ons de ltio tm sido as mais indicadas para desenvolvimento dos VEs leves. Uma bateria deste tipo composta por anodo, geralmente grafite e catodo, composto por diferentes formulaes (incluindo Li, Ni, Cd, Co, Mn, Fe, Al, etc.) e eletrlito (sais de ltio), como mostrado na Figura 3.


Figura 3. Representao esquemtica de uma clula de on de ltio, composta por anodo, catodo e eletrlito.


Como consequncia, o mercado extrativista do ltio tem se desenvolvido rapidamente nos ltimos anos. Em 2015, o preo spot do carbonato de ltio cresceu 15% em relao ao ano anterior com projeo de mais 75% at 2025. O crescimento da demanda pela commodity prevista em 20 mil toneladas por ano at 2021, com a oferta tambm crescendo para suprir as necessidades do mercado - que incluem no apenas VE, mas tambm baterias que so utilizadas como recurso energtico distribudo por residncias e distribuidoras de eletricidade.

Atualmente, o mercado de ltio se concentra na Austrlia e na Amrica do Sul. Por definio do United States Geological Services (USGS, 2017), "recursos" se referem quantidade estimada total de um mineral presumidamente disponvel, enquanto "reservas" se referem parte dos recursos que tem potencial razovel de ser economicamente vivel, em face da tecnologia existente. As reservas provadas de ltio se concentram na Argentina, Austrlia, Chile, EUA e China (Figura 4), totalizando 14 milhes de toneladas e recursos estimados em 48 milhes de toneladas no mundo. Estima-se que a Bolvia possua 9 milhes de toneladas de ltio, no entanto, a USGS ainda no as considera como uma reserva vivel.

Alm do ltio, o cobalto outro mineral crtico para a produo dessas baterias, cujo setor j consome 42% da produo do mineral. Aproximadamente 97% de toda a oferta global de cobalto vem como coproduto do nquel e do cobre. A maior mina do mundo, Tenke Fungurume, se localiza na Repblica Democrtica do Congo e foi adquirida por um grupo de empresas chinesas em 2017. Estima-se que 65% de todas as reservas viveis de cobalto estejam em territrio congols, caracterizado por constantes conflitos militares. Alm disso, segundo a Unicef, em 2014, 40 mil crianas trabalhavam em minas no sul do Congo, muitas ligadas extrao de cobalto.


Fonte: USGS (2017) - Elaborao prpria
Figura 4. Principais reservas viveis e recursos estimados de ltio e cobalto no mundo


Estima-se que a bateria do tipo NCA (xido de ltio nquel cobalto e alumnio) que equipa o Tesla modelo S (70-85 kWh) pese em torno de 540 kg. No catodo haveria 12 kg de ltio (ou 63 kg de carbonato de ltio equivalente (LCE) - mais do que a quantidade de ltio de 10.000 telefones celulares) e 8 kg de cobalto, e no anodo, 54 kg de grafite. Para cada 1% de aumento de penetrao de um VE a bateria no mercado, haveria um aumento na demanda por ltio de 70 mil toneladas de LCE por ano, segundo clculo da Goldman Sachs.

Considerando as demandas por minerais da bateria NCA e apenas as reservas viveis atualmente de acordo com a USGS (7 milhes de toneladas de cobalto e 14 milhes de toneladas de ltio), a produo de VE estaria limitada a um total de 875 milhes de VE pelo cobalto e 1 bilho pelo ltio. Por outro lado, considerando-se apenas a produo de 2016 dos minerais (123 mil toneladas de cobalto e 35 mil toneladas de ltio), a produo mxima de VE seria de 15 milhes pelo cobalto e 3 milhes pelo ltio, sem considerar o uso desses minerais pelos outros mercados. Estima-se que a frota mundial atual de veculos leves seja de cerca de 1 bilho de veculos, podendo chegar a 2 bilhes at 2050. No entanto, h de se ressaltar que ltio e cobalto so materiais com potencial para serem reciclveis.

O descarte das baterias outra questo central para a indstria dos VE. Se realizado de maneira incorreta pode levar contaminao do solo e da gua, trazendo consequncias ao prprio ser humano. Os metais pesados comumente utilizados nas baterias, tais como cobre, chumbo e nquel so altamente reativos e bioacumulveis, no sendo eliminados pelos organismos. O acmulo de ltio, por sua vez um metal alcalino, no organismo humano, pode levar a alteraes neurolgicas e reduo da funo renal. Os efeitos txicos do cobalto so mais pronunciados nos pulmes, na forma de asma brnquica e fibrose.

fundamental que seja criado um sistema de reciclagem, no entanto, o processo complexo, pois envolve procedimentos qumicos sofisticados e arriscados. O tempo de vida mdia da bateria de ltio-ferro fosfato (LFP), tipo predominante que equipa os VE na China, de cinco anos, ou seja, em 2018 grande parte das baterias instaladas entre 2012 e 2014 dever ser trocada. Em 2020, a estimativa de que 250 mil toneladas ou 35 GWh de baterias sejam retiradas de circulao. Mas no s a China que enfrenta este tipo de problema. Na Europa, apenas 5% das baterias de on-ltio so recicladas, com a maioria sendo depositada em aterros ou incinerada.

O carro eltrico substituir o carro a combusto interna no futuro. DEPENDE.

No h uma soluo nica para o setor e ambas as tecnologias ainda vo evoluir e podem coexistir. Para cada pas devem ser considerados a infraestrutura e os nveis de desenvolvimento da indstria automotiva e do setor energtico j existentes, de modo a minimizar impactos ambientais, sociais e econmicos da mudana drstica relacionada implementao dos VE. Pode ser observado na Figura 5 que para pases produtores de etanol, como o Brasil, j existe uma soluo com baixa emisso de GEE. Na Europa, por sua vez, VE teriam vantagens ambientais, prximas s do etanol, apenas em 2040. Do ponto de vista energtico veculos eltricos so mais eficientes, mas este fato no inviabilizaria o uso de VCI e combustveis como etanol, mesmo em longo prazo. Atualmente fabricantes de veculos investem em motores a combusto interna mais eficientes e menos poluentes (com metas de 56% de eficincia trmica) e tecnologias como clulas combustveis esto em fase de desenvolvimento por grandes montadoras, permitindo unir a eficincia energtica do motor eltrico com as baixas emisses de CO2 pelo uso do etanol.


Fonte: Mahle / AEA - Elaborao prpria
Figura 5. Consumo de energia e emisses de ciclo de vida de gases de efeito estufa projetados para diferentes tipos de motores.


Referncias

EPE, 2017. Empresa de Pesquisa Energtica. Ministrio de Minas e Energia. Anlise de Conjuntura dos Biocombustveis - Ano 2016. EPE-DPG-SDB-Bios-NT-05-2017. Clique aqui para ver.

IEA, 2017. Global EV Outlook 2017 - Two million and counting. International Energy Agency. Clique aqui para ver.

USGS, 2017. US Geological Survey, Mineral Commodity Summaries. Cobalt (52) and Lithium (101). Clique aqui para ver.


Autores:


Gonalo Pereira, Professor Titular da Unicamp e Coordenador do LGE;
Carol Grassi, Pesquisadora Associada da Unicamp;
Lucas Pereira, Pesquisador da Unicamp; e
Marcelo Carazzolle, Pesquisador da Unicamp.

Os artigos assinados so de responsabilidade de seus autores, no representando,
necessariamente, a opinio e os valores defendidos pela UDOP.
Enviar por e-mail Imprimir
Clipping de Notcias UDOP
Inscreva-se e receba as novidades do setor.
    
Notcias Relacionadas
15/02/19 - Vendas de carros caem 4,6% na Europa em janeiro
  - BP v crescimento de energias renovveis disparando nas prximas dcadas no mundo
  - Dlar recua ante real aps detalhes sobre proposta da Previdncia e com Bebbiano no radar
  - Prvia do PIB do Banco Central indica que economia brasileira cresceu 1,15% em 2018
  - Economia do Brasil perde fora no 4 tri mas termina 2018 com expanso de 1,15%, mostra BC
  - Eltrico no nica soluo questo ambiental, defendem montadoras
  - USDA informa venda de mais de 205 mil t de milho para destinos no revelados
14/02/19 - Nissan lana segunda gerao de seu carro 100% eltrico no Brasil
13/02/19 - Vendas de veculos sobem 15,1% em 2018, maior alta em 11 anos, diz IBGE
08/02/19 - Outra viso sobre o carro eltrico: a Mahle Metal Leve opina
06/02/19 - Etanol e veculos flex-fuel: possibilidade de escolha e a economia efetiva aos consumidores
05/02/19 - Salto tecnolgico para superar a crise energtica global
04/02/19 - Thiago Vasconcellos Barral Ferreira o novo Presidente da EPE
  - Energia solar cresce 169% em trs cidades do interior paulista
30/01/19 - Corporaes nunca tiveram tanto apetite por energia no poluente
18/06/18 - Rota 2030 exigir que montadoras invistam em pesquisa
06/06/18 - Protesto de caminhoneiros interrompe 18 meses de alta na produo de veculos
Para enviar a notcia, basta preencher o formulrio abaixo.
Todos os campos so de preenchimento obrigatrio!
 
Verdades e mitos sobre o carro eltrico
 
Seu nome:
Seu e-mail:
Destinatrio:
E-mail destinatrio:
(separe mais de um e-mail por ,)
Comentrio:
 
 
A UDOP

• Associadas
• Associe-se
• Estrutura Administrativa
• Nossa Histria
• Misso, Viso e Objetivos
• Trofu da Agroenergia
• Serviços Prestados
• Vídeo Institucional
• Contatos
Institucional

• Comits de Gesto
• Convênios e Parcerias
• Legislação
• Sustentabilidade
UniUDOP

• A UniUDOP
• Comits de Gesto
• Congresso Nacional da Bioenergia
• Frum de Implementao Tecnolgica
• Pós-Graduação
• Qualifica
• Seminrio UDOP de Inovao
Imprensa

• Agncia UDOP de Notcias
• ltimas Notcias
• Frum de Articulistas
• Galerias de Fotos
• Mdias Sociais
• RSS
• TV UDOP
• Apoio Cultural
• Contatos
Dados de Mercado

• Boletins
• Comércio Exterior
• Consecana
• Cotações
• Indicador - Açúcar
• Indicador - Etanol
• Produo Brasileira
Servios

• Biblioteca Virtual
• Bolsa de Empregos
• Bolsa de Negócios
• Calendrio de Eventos
• Guia de Empresas
• ndice Pluviomtrico
• Pesquisas UDOP
• Previso do Tempo
• Usinas/Destilarias
Mapas

• Usinas/Destilarias
• Bacias Hidrogrficas
UDOP - União dos Produtores de Bioenergia
Praça João Pessoa, 26 - Centro - 16.010-450 - Araçatuba/SP - tel/fax: +55 (18) 2103-0528

2012 - Todos os direitos reservados

POLÍTICAS DE PRIVACIDADE
Desenvolvimento:
/