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Chefe da OMC diz que Bolsonaro gera otimismo para comrcio internacional  

06/12/2018 - Exatamente uma semana depois de o presidente francs, Emmanuel Macron, anunciar que no defende tratados que envolvam o Brasil se Jair Bolsonaro decidir abandonar o Acordo de Paris, o embaixador Roberto Azevdo, diretor-geral da Organizao Mundial do Comrcio, afirmou que delegaes internacionais tm mostrado boa vontade em relao ao futuro governo brasileiro.

"O que eu escuto das delegaes que vm conversar comigo at um certo otimismo, do ponto de vista de perspectivas de liberao comercial, de maior abertura da economia brasileira para o comrcio internacional", disse Azevdo a jornalistas brasileiros em Washington, onde recebeu prmio de Personalidade do Ano do Conselho Nacional de Comrcio Internacional dos EUA (NFTC, na sigla em ingls).
A simpatia estrangeira pela nova Presidncia, segundo o brasileiro que chefia a OMC, tambm marcada por cautela.

"Isso visto de maneira geral positiva, mas esto todos ainda esperando para ver quais medidas sero efetivamente adotadas", afirmou.

"A equipe econmica precisa de tempo para estruturar sua estratgia e colocar para os parceiros comerciais como o Brasil vai se comportar."

"As pessoas esto acompanhando de perto", prosseguiu Azevdo.

Para parte da comunidade internacional, as crticas do governo eleito a rgos multilaterais e medidas como a controversa transferncia da embaixada brasileira em Israel para Jerusalm, alm da eventual sada do Acordo de Paris, so fontes de insegurana nos mercados e podem trazer impactos financeiros para o comrcio exterior brasileiro.

Durante a reunio da cpula do G20 (grupo das 20 maiores economias do mundo), em Buenos Aires, o presidente da Frana declarou ser contrrio assinatura de grandes acordos comerciais com naes ou grupo de naes que no respeitem o Acordo de Paris, pelo qual pases se comprometem a reduzir emisses de gases poluentes e reduzir o aquecimento global.

"Houve uma grande mudana poltica no Brasil recentemente, ento o Mercosul tem que considerar o impacto dessa mudana", disse Macron a jornalistas no ltimo dia 29.

"Do lado francs, no concordo com a assinatura de amplos acordos comerciais com pases que no respeitam o Acordo de Paris."

O acordo est sendo negociado h 18 anos, segundo o Itamaraty.

Na vspera da declarao do francs, o capito reformado assumiu a resposabilidade pela deciso do governo brasileiro de cancelar a realizao da COP-25 (Conferncia do Clima da Organizao das Naes Unidas, que acontece em 2019).

Questionado sobre a controvrsia pela BBC News Brasil, Azevdo disse que no opinaria porque a negociao entre os dois blocos acontece fora da OMC.


O saldo do G20

Mas o grande tema do G20, palco da controvrsia entre Brasil e Frana, foi a declarao conjunta assinada pelos lderes das principais economias do mundo. Para o brasileiro, que chefia a OMC desde 2013 e enfrenta uma onda protecionista e nacionalista ganhando fora em diferentes pases, o texto motivo de comemorao.

Com menes sutis e indiretas importncia do multilateralismo no comrcio - os EUA teriam vetado a incluso do termo no texto final -, o documento assinado pelos lderes acabou dando flego OMC, alvo de frequentes crticas de Donald Trump, que j disse que a organizao "injusta" e "maltrata" os Estados Unidos.

Uma das principais entidades econmicas multilaterais do mundo, junto ao FMI (Fundo Monetrio Internacional), e o Banco Mundial, a OMC responsvel por regular trocas e mediar disputas comerciais entre os pases membros.

"A declarao na rea comercial reconhece o momento difcil que estamos vivendo, reconhece que o sistema multilateral da OMC contribui para o crescimento econmico, para a criao de empregos, para o desenvolvimento, e reconhece que o sistema multilateral, para dar esta contribuio, pode e deve melhorar", avaliou Azevdo nesta quarta, em Washington.

Para a comunidade internacional, a assinatura do documento do G20 desidrataria, ao menos no mdio prazo, boatos que vinham sendo ventilados em Washington desde o incio do governo Trump sobre uma eventual sada dos EUA do acordo.

"Apoiamos a necessria reforma da OMC para aperfeioar seu funcionamento. Revisaremos o progresso dessa medida na prxima cpula", diz o texto publicado no fim do encontro.

A reestruturao j era uma das bandeiras levantadas pela organizao nos ltimos meses como forma de acalmar os nimos na Casa Branca. Segundo Azevdo, o prximo passo submeter as discusses do G20 aos demais membros da OMC - 164 pases.

"Essa mensagem vem do G20, que um grupo importantssimo, expressiva maioria do comrcio mundial, mas os outros membros da OMC precisam ser parte desse processo e acho que essa conversa tem que ser ampliada e debatida em Genebra de uma maneira mais ampla para ento definir como ns vamos avanar", afirmou.


Longas negociaes

Enviada no incio do ms passado, uma proposta conjunta de Estados Unidos, Japo, Unio Europeia, Argentina e Costa Rica para aumentar a transparncia da organizao e aprimorar seu sistema de notificaes poder ser o primeiro passo para a reforma.

J novos consensos sobre outros pontos em discusso, como punies a pases denunciados por violarem ou distorcerem regras comerciais, podero ser acelerados por meio da adoo do "plurilateralismo" em futuras decises.

Hoje, o sistema multilateral da instituio prev acordos s sejam firmados se todos os pases-membros concordarem - o que tenta garantir equilbrio, mas tambm gera lentido nas decises. No modelo plurilateral, algumas decises poderiam ser tomadas por grupos reduzidos de pases, o que aceleraria o processo, mas deve gerar crticas dos que no tiverem voto.
Marcado por muito suspense, o esperado encontro no G20 dos presidentes Donald Trump e Xi Jinping, lderes opostos na hostilidade comercial entre EUA e China, terminou com sinais de armistcio entre os dois pases - ao menos por trs meses.

Aps trocarem elogios, os dois presidentes concordaram em suspender a implementao de novas tarifas pelos EUA sobre produtos importados da China. Antes do encontro, os americanos haviam prometido subir de 10% para 25% as taxas cobradas sobre importados chineses a partir de 10 de janeiro.

"A OMC oferece um foro privilegiado para esta discusso", disse Azevdo em Washington.

De um lado, os EUA querem, por exemplo, botar um ponto final na forma com que a China lida atualmente com transferncia de tecnologia por meio de multinacionais estrangeiras, com subsdios estatais a empresas e termos de propriedade intelectual.

De outro, os chineses buscam apoio da organizao para cortar interferncias do governo americano na produo agrcola do pas. Tambm querem que os EUA deixem de vender produtos para o exterior a preos mais baixos que os praticados pelo mercado (prtica conhecida como dumping, da qual a China tambm acusada.

"As conversaes entre EUA e China so muito bem-vindas, devem continuar. Esse canal bilateral muito importante e o canal da OMC complementa isso, porque parte destas dificuldades entre EUA e China afetam outros parceiros comerciais", comentou Azevdo.


Fonte: BBC Brasil.com
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