Quinta-feira, 21 de setembro de 2017
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Biodiesel verdades e mitos  

Desde tempos imemoriais, os povos antigos, como os sumérios, os hititas, os caldeus, os egípcios, os babilônios, e mais tarde os gregos e os romanos utilizavam um processo simples para fabricar sabão. Ele consiste em processar, na presença de uma substancia alcalina, uma gordura, vegetal ou anima, pela qual se obtém a separação de glicerina e a formação do sabão. A reação é tão antiga que tem nome de me latim: “saponificatio”. A glicerina é quimicamente um álcool com três hidroxilas (os grupos OH, característicos da família dos álcoois), ou seja, um tri-álcool. Se, ao processar a reação, se agregar um álcool a cadeia molecular curta (metanol ou etanol), esse se liga ao ácidos graxos, formando moléculas estáveis dos chamados ésteres de ácidos graxos.

Essa segunda forma de processar a reação se chama transesterificação. Óleos vegetais transesterificados tem amenizadas algumas de suas propriedades indesejáveis que impedem seu uso “in natura” como combustíveis. Mas essa reação não é algo trivial que possa ser feita num sitiozinho de agricultor do agreste ou da zona da mata, com base numa espécie vegetal qualquer. É uma reação que precisa de um reator que opere em condições estritamente controladas, para que não sobrem frações indesejadas, como glicerina residual, sabões metálicos, impurezas, gomas, flocos, natas e borras, sub-produtos ácidicos (radicais dos ácidos graxos livres e não esterificados) e outros materiais que poderiam comprometer a queima do éster, atacar partes e peças dos motores, contaminar o óleo lubrificante, entupir filtros e galerias do interior dos motores ou produzir gases poluentes em quantidade prejudicial à saúde e à natureza. Um dos problemas sérios é que a cadeia dos ésteres contendo insaturações tendem a formar partículas de carbono que ou se depositam dentro dos motores e dutos de escape, ou saem para a atmosfera bob a forma de fuligem...

Um festival de espécies “oleaginosas”

Não tem nenhum cabimento científico ou prático fazer um programa nacional de biodiesel usando para isso mais de uma centena de óleos diferentes, como propõe o atual programa brasileiro. Simplesmente porque, tendo em sua composição ácidos graxos diferentes – dependendo da espécie vegetal, do clima da região, da umidade e até da composição dos solos -, os éteres resultantes teriam características físico-químicas e principalmente comportamento termodinâmico e até hidráulicos completamente diferente um dos outros. Ora, se existe algo que não se pode prever com certeza é para onde vão os caminhões e ônibus brasileiros candidatos a consumirem tamanha variedade de especificações de combustível, já que nosso “programa” contempla a regionalização das espécies segundo um mapa de preferências políticas ou “vocações geográficas (sic).

Na Europa, o biodiesel usa uma única espécie de óleo vegetal, o óleo de colza (ou canola). Não são fazendas pequenas que produzem o combustível alternativo. Elas somente produzem a matéria prima. O objetivo lá sempre foi usar o biodiesel para propelir maquinaria agrícola e veículos usados fora das grandes cidades. Grandes empresas agro-industriais, altamente especializadas, como a gigante Cargill, processam os óleos vegetais providenciando um descarte adequado das frações indesejáveis e promovendo uma total uniformidade técnica para o produto entregues para as companhias de petróleos, para ser adicionado de forma controlada e garantida, ao diesel. A glicerina removida dos óleos na Comunidade Européia já ocupou praticamente toda a demanda internacional para esse tipo de matéria prima, e sua produção em grande quantidade já é um problema preocupante porque não há demanda para tanta glicerina pelo planeta afora. Se a produção aumentar desmensuradamente, além de não alcançar preço, a glicerina se transformará num fantástico problema de descarte “não remunerado”.

Nos Estados Unidos o projeto do biodiesel será inteiramente feito com base no óleo de soja. É fato que lá também há um mundarel de visionários e fanáticos advogando o uso de uma grande variedade de espécies, mas a diferença é que ninguém os leva a sério.

Ninguém imaginou, porque absolutamente não há lógica alguma nisso, seguir vocações regionais dentre os países da União Européia, para que uma use colza, outra milho, outra soja, girassol ou seja lá o quê, como fonte de óleo.

Porque isso impediria o abastecimento regular dos veículos que trafegam livremente por todos os países. A razão de usar uma só espécie é ter um combustível idêntico, para que não seja preciso recalibrar os motores quando o veículo é abastecido com uma mistura de ésteres diferentes, o que reduziria sua potência caso não fosse feito, podendo, inclusive, dar os mesmos problemas sérios apresentados pela utilização dos óleos “in-natura”.

No Brasil o programa de biodiesel é visto como um programa de remuneração facilitada e oportuna de agricultores familiares, com forte apego político como ferramenta de distribuição de renda e incentivo social para fixação do homem a terra. Ou seja lá qual for a idéia! Só que não dá para imaginar, obviamente, é que, um veículo abastecido no Paraná com éster metílico com óleo de soja em mistura com óleo diesel comum, viaje até Minas Gerais, sendo reabastecido com éster metílico de óleo de mamona e diesel, e prossiga viagem, eventualmente, sendo abastecido com éster metílico ou etílico de óleo de dendê, no Paraná, ou de pinhão manso ou pinhão bravo, no Piauí, e de colza, girassol, jojoba, babaçu onde quer que se as plantem!... São 157 espécies oficiais citadas num estudo confidencial, publicado no final de 2005...Dá para entender facilmente o impedimento?! Certas figuras coroadas em Brasília acham que dá para ignorar esse alerta...Provavelmente vão correr um grave risco técnico por isso.

O óleo de mamona apresentado pelo governo como uma excelente alternativa, esta muito mais para lubrificante do que para combustível. Sua elevada viscosidade e seu teor em ácidos graxos insaturados não recomenda seu uso sem uma intensa hidrogenação.

Óleo de mamona também vale bastante, porque tem usos muito mais nobres do que a queima. Estudos mundiais revelam que é possível sintetizar substancias compostas que servem para fabricar ossos artificiais, próteses e órteses, que são rejeitadas pelo corpo humano e dos animais. Seu alto valor de mercado advém do seu uso na síntese de materiais plásticos, tinta para off-set, plastificante para elastômeros, lubrificantes para delicados aparatos de mecânica fina, foils e laminados para revestimentos superficiais, tintas e vernizes para uso em aparatos marinhos e até como envases para fármacos encapsulados que sejam “digestivos”. Vamos queimar...

O biodiesel que gera lindos anúncios televisivos, inaugurações festivas sem continuidade alguma e belos discursos sobre redenções de agricultura familiar, não está nem andando nem dando certo porque não houve testes conclusivos confirmados pela indústria automotiva que garantem que a idéia “multi-fontes” tem chance de funcionar. Tem muito anúncio e pouca explicação nessa coisa. O consumo de óleo diesel no Brasil não é intuitivo: hoje são cerca de 40 bilhões de litros de óleo diesel por ano (que já poderiam ser 60 se a economia tivesse crescido a contento nos últimos 6 anos). É um volume avassalador. E se o prometido crescimento econômico vingar – o tal “espetáculo do crescimento” – esse consumo vai aumentar de modo rápido e inexorável. Para fazer algum biodiesel brasileiro que faça sentido econômico é necessário produzir 800 milhões de litros de biodiesel pronto ou 900 milhões de litros de óleo vegetal bruto, que possa ser processado para fazer a mistura de 2% ao diesel (tornada obrigatória por lei!!!). Para 5% de mistura (também obrigatória por lei) serão necessários 2 bilhões de litros de biodiesel, o que requer 2.2 bilhões de litros de óleo em bruto. Alem disso é preciso haver álcool suficiente para realizar a transesterificação. As tropelias da recente entressafra e o efeito no preço do álcool já demonstraram com clareza como é sensível a arbitragem dos preços desse commodity quando o valor do açúcar recomenda aos usineiros fabricarem mais ouro branco para o mercado externo...

Dos cento e tantos óleos “em estudo” para isso, somente o de soja preenche esse requisito de ser produzido em altos volumes. E porquê? Porque é produzido pelo agribusiness organizado, de grande porte, com planificação profissional, tecnologia de ponta, políticas fito-satisfatórias adequadas nas lavouras, uso responsável e comedido de defensivos agrícolas, variedades geneticamente aperfeiçoadas, ampla mecanização das colheitas, infra-estrutura de transporte suficiente embora ainda precária quanto ao atendimento nos pólos de produção e de descarga para beneficiamento / exportação. Não há excedentes agrícolas dessa commodity. Tudo que é produzido é colocado no mercado, local e internacional, a preços do dia nas bolsas de mercadorias ou de oportunidades nas Bolsas de futuros.

O pró-soja que nunca ouve

Vale lembrar que o Brasil nunca montou ou operou um “Pró-Soja”, nem deu qualquer tipo de subsídio para sua cultura. Ainda assim é o segundo produtor mundial da commodity, ou o primeiro, dependendo de quem faz o ranking. Soja, é o tipo de produto que deu certo apesar das conspirações do governo e da penúria em que vive os agricultores que a produzem. Sabem porquê? Porque o melhor adubo da terra é o preço, e no caso da soja, apesar dos pesares, o preço vinha sendo suficiente, embora haja caído fortemente nos últimos tempos. Para que se monte um “Pró-Azeite” no Brasil é preciso acalmar os ânimos da agricultura brasileira, escarmentada por adversidades naturais, (estiagens, inundações, vendavais, dívidas passadas impagáveis, multiplicadas exponencialmente por correção monetária e moras), e infernizadas por calamidades administrativas (como as taxas de juros das mais altas do mundo, e uma endêmica falta de financiamento para os plantios e os estoques, além de um dólar que não remunera o agricultor que se atreve a exportar). As máquinas que recentemente obstruíram, por semanas a fio, o tráfego em certar rodovias federais pelo clamor dos produtores contra esse estado de coisas são as mesmas que teriam de ser usadas para produzir os bilhões de litros e os “zilhões” de toneladas de soja, ou outra coisa qualquer, para tornarem o biodiesel uma realidade palpável. Os agricultores estão a ponto da desistência e o descrédito em medidas governamentais é a maior ameaça ao biodiesel de larga escala. O de pequena escala, que me perdoe seus promotores, mas não conta.

Mas esse realismo objetivo não consegue derrubar as barreiras montadas para justificar o projeto de apoio ao governo – a fundo quase perdido – ao produtor artesanal, a não ser que “um valor mais alto se alevante”, como dizia Camões. Que valor seria esse?

Ou um preço de petróleo incapacitante, que compense o desvio da “commodity soja” (o tal grupo Soja que aparece nas Atas do Copom), da exportação para a produção de combustível, ou uma emergência de tal monta e prioridade que exija a disponibilidade de combustível a qualquer custo, numa mobilização para o estado de guerra, a exemplo dos perigosos e desengonçados gasogênios, usados na época da Segunda Guerra Mundial. Se, ao invés de recorrer a agricultura amadora, o projeto do biodiesel tupiniquim focalizasse as fontes profissionais do óleo necessário, ele seguiria a trilha de sucesso do Pró-álcool. Até porque um programa dessa ordem é um desafio logístico e tecnológico de proporções incomensuráveis, que não conbina com iniciativas esparsas ou com a pulverização das fontes.

Há dias atrás, a Petrobrás, durante o amargo rescaldo da crise Brasil-Bolívia, anunciou um projeto denominado H-Bio. O anúncio do novo projeto indica que duas refinarias estariam semdo preparadas para fazer a destilação consorciada com hidrogenação de cargas de petróleo e óleo vegetal bruto, para obter o tal H-Bio, no caso, exclusivamente de soja. Se der certo, cinco ou mais refinarias entram na história.

Eles informam ainda que o H-Bio é “equivalente” e “complementar” ao biodiesel brasileiro, o que pode ser apenas uma forma de satisfazer alguns interesses do Governo, com seu programa de caráter social, onde o que possivelmente se planeja queimar são subsídios para combater miséria e granjear simpatias.

Arrisco imaginar que talvez o H-Bio chegue a ser factível, se houver estudos aprofundados, mas é preciso aguardar os “entretantos” para saber quanto valeria posto no tanque do usuário, e como se comportaria na dirigibilidade dos veículos.

Seria fantástico que desse certo, porque aí aquele “outro” biodiesel poderia ser remetido direto para o crematório...

Por Paulo Cezar de Aguiar
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