Facebook
Instagram
Linkedin
Twitter
Youtube
Fale Conosco
Elcio Ito: ´Setor automotivo brasileiro deve cair 30% em 2020´
Publicado em 29/09/2020 às 08h31
Foto Notícia
A pandemia do coronavírus derrubou economias do mundo inteiro e impactou fortemente até as maiores empresas globais. Foi o caso da brasileira Iochpe-Maxion, líder mundial em produção de rodas e componentes estruturais automotivos. A companhia, que tem 32 unidades, em 14 países, viu sua receita diminuir 56% no segundo trimestre de 2020.

Como resultado do choque provocado pelo vírus no segmento, as ações da empresa (MYPK3) estão caindo 41,6% no ano. "Como tínhamos pouca visibilidade, não sabíamos da profundidade e duração da crise, um movimento forte que fizemos foi reforçar a posição de caixa", explica Elcio Ito, Global CFO da Iochpe-Maxion.

A multinacional chegou ao final do segundo trimestre com R$ 1,4 bilhão em caixa, valor três vezes maior que o observado no mesmo período do ano passado. Na visão de Ito, o setor automotivo brasileiro deve demorar mais de se recuperar que os demais países da Europa e América do Norte. "O país tem mostrado uma recuperação maior nos últimos dois meses, mas ainda muito abaixo dos volumes que a gente viu no ano passado", diz.

Para o E-Investidor, o executivo com mais de 20 anos de experiência no mercado, conta as estratégias que a empresa adotou para passar pelos piores momentos da crise e como enxerga a retomada do segmento.


E-Investidor -- Como está a recuperação do setor automotivo ao redor do mundo?

Elcio Ito -- Uma consultoria muito reconhecida no mundo automotivo, chamada IHS, apontou que o mês de junho já mostrou uma recuperação importante. No segundo trimestre, o Brasil caiu em torno de 80%, a América do Norte aproximadamente 71% e a Europa, 66%, na comparação com o ano anterior. Quando a gente está olhando para o terceiro trimestre, temos uma queda bem menor: no Brasil de 25% e na América do Norte e na Europa abaixo de 10%, em relação ao ano passado.

Temos presenciado um pouco dessa recuperação aqui nos últimos meses, e seguindo uma trajetória positiva de recuperação. Estamos vendo os casos repiques de covid-19 ao redor do mundo, mas isso por enquanto não está tendo nenhum impacto aqui na demanda e nas nossas produções ao redor do mundo. Acho que a recuperação continua de forma consistente e gradual nos últimos meses. O pior vimos lá em abril; certamente não estamos prevendo que aconteça novamente, pelo menos no horizonte próximo.


E-Investidor -- Considerando que as vendas de carros nos EUA e na Europa têm crescido, o que podemos esperar para o Brasil até o fim do ano?

Ito -- O Brasil entrou no ciclo do vírus um pouco mais tarde que os outros países. Isto é, o país tem mostrado uma recuperação maior nos últimos dois meses, mas ainda muito abaixo dos volumes que a gente viu no ano passado. E mesmo com essa recuperação que tem se demonstrado positiva e gradual, ainda assim vamos ter uma queda muito relevante em relação a 2019, ao redor de 30%.


E-Investidor -- A pandemia mudou comportamentos. Algumas empresas, por exemplo, aderiram ao home office permanentemente, o que pode reduzir necessidade de automóveis. Vocês encaram esse movimento como um desafio?

Ito -- Os novos comportamentos advindos da pandemia ainda estão na esfera das possibilidades, porque ainda tem pouco tempo, muitos países ainda nem saíram da pandemia, como é o caso do Brasil. Mas o que percebemos foi que em mercados que já estão um pouco na frente desse processo de recuperação, especificamente na China e na Índia, tem ocorrido uma demanda um pouco maior de veículos de entrada, que são veículos um pouco mais básicos. Isso vem na tendência de as pessoas buscarem ter um veículo próprio, mesmo que ele seja ainda mais simples, em vez de utilizar os transportes públicos.

Mas é uma tendência ainda muito inicial, não sabemos se ela será permanente ou temporária. Não vemos ainda nenhuma outra tendência mais clara, seja para cima ou para baixo, em nenhuma outra parte do mundo.


E-Investidor -- E a tendência aos carros elétricos?

Ito -- Os carros elétricos já eram no pré pandemia e continuam sendo uma tendência. Em alguns mercados, acabam até colocando incentivos adicionais em relação aos veículos elétricos para fomentar a demanda -- na Europa, por exemplo. Essa tendência deve continuar nos próximos anos. Do nosso lado, já fornecemos rodas e componentes estruturais que estão presentes nos veículos elétricos.

Faz parte do nosso DNA o fator da inovação. Estamos presentes no segmento de elétricos, mas isso também demanda uma série de tecnologias e inovações que a gente vai colocando dentro das rodas e se adequando para essas mudanças. Buscando, por exemplo, materiais de mesma resistência, com redução de peso. A gente acompanha esse processo de inovação muito de perto, e dado o nosso tamanho e a nossa escala, a companhia está bastante envolvida nesse processo.


E-Investidor -- Boa parte da receita da Iochpe-Maxion vem da Europa, depois América do Norte e, por último, da América do Sul. Esse cenário mudou por conta da crise?

Ito -- Não. O que teve de distinção, que é também um dos grandes benefícios da nossa presença global, é que cada mercado, seja porque o ciclo do vírus iniciou antes ou depois, teve uma velocidade de recuperação um pouco distinta. E como a companhia está em vários mercados, a gente acaba tendo o benefício de ter uma recuperação média global.

Como estávamos falando agora do Brasil, que entrou de forma tardia no ciclo do vírus e teve uma recuperação um pouco mais lenta e agora começa a dar um sinal melhor. Já os Estados Unidos, por sua vez, já estão se recuperando mais forte.Mas não muda a ordem de relevância das regiões.


E-Investidor -- O Bradesco BBI elevou a recomendação para as ações da Iochpe-Maxion. O preço das ações reflete a melhor nas expectativas da indústria?

Ito -- Entendemos que sim. Acho que em um primeiro momento a indústria foi bastante impactada, como a gente viu aqui no trimestre e em todas as grandes montadoras ao redor do mundo. A companhia vem se ajustando e se preparando durante esse momento mais difícil.


E-Investidor -- Hoje o maior risco para o setor continua sendo o coronavírus?

Ito -- Acho que tem uma incerteza ainda grande sobre o próprio processo do vírus, não dá para descartar totalmente que esse processo está finalizado. Até as próprias incertezas e volatilidades de mercado mostram essa insegurança ainda. De forma geral, a indústria automotiva global tem seus altos e baixos, mas vem em uma tendência mais estável, esses solavancos grandes que tivemos agora são mais difíceis de acontecer. E passado esse momento, ajustando nosso balanço, a ideia é continuar expandindo nosso crescimento de forma bastante forte.


E-Investidor -- Como foi feito o acompanhamento da pandemia, tendo em vista que a Iochpe-Maxion tem presença global?

Ito -- Temos uma planta na China, uma joint venture muito próxima à cidade de Wuhan, onde começou todo o processo inicial. Então a gente vem acompanhando o avanço do coronavírus desde o início, quando o problema era local. Nessa época, lá para fevereiro, os questionamentos iniciais eram como a China impactaria o fornecimento global no segmento automotivo. Questionávamos até uma eventual com a falta de equipamentos e peças, em que a China é muito relevante, mundialmente falando.

Então começou com a gente acompanhando desde o início, com a visibilidade local, e entendendo como esse processo foi se desenhando ao longo do tempo. Depois tomou a dimensão global e acompanhamos muito de perto o desmembramento dele na Europa até chegar no Brasil. A gente já estava tendo as experiências de como foi no mundo inteiro, até que em meados de março, quando o mundo começou a entrar em quarentena, com arrefecimento da economia global bastante forte.


E-Investidor -- Qual foi o momento mais crítico? Chegaram a ter todas as unidades paralisadas?

Ito -- Nós atendemos essencialmente as grandes montadoras de veículos do mundo e à medida que essas montadoras foram parando suas operações, fechando as portas, também não fazia sentido nenhum a gente continuar produzindo. Portanto, também fomos gradualmente reduzindo nosso nível de volume de operações ao redor do mundo, de forma que em abril, mês mais crítico que vimos até hoje, uma boa parte das 32 plantas que temos ao redor do planeta,em algum momento estavam sem operação. E isso durante uma ou duas semanas no mês de abril.

Então se iniciou uma parada grande das nossas operações e a gente demonstrou isso nos resultados do segundo trimestre: tivemos uma queda grande de faturamento e de receita em uma ordem de 56%, em relação ao volume anterior.


E-Investidor -- A fábrica da China foi a que ficou menos tempo parada, certo?

Ito -- A China, como um mercado, foi o primeiro a entrar na crise. Mas hoje, quando a gente olha os volumes do país, percebemos que já estão em níveis até acima do próprio período pré-covid. A grande verdade é que a nossa planta da China ficou poucos dias paralisada.

Se a gente recordar e voltar no tempo, teve o ano novo chinês, que as plantas já ficaram, de forma geral, em férias. E a gente acabou estendendo alguns dias somente, três ou quatro dias. Ela também ficou fechada uma semana ou outra, não por causa do covid, mas porque impactou a demanda da região por aqueles produtos fabricados lá. Depois voltou a abrir de forma gradual, muito lenta, mas já com algum nível de operação. Resumindo, essa planta permaneceu essencialmente aberta.


E-Investidor -- Como vocês agiram para conter o impacto da pandemia?

Ito -- Do ponto de vista financeiro, acabamos tendo uma estratégia bastante conservadora. Como naquele momento tínhamos pouca visibilidade, não sabíamos da profundidade e duração da crise, um movimento forte que fizemos foi reforçar a posição de caixa. Então a gente acabou elevando em quase três vezes o nosso nível de caixa normal. Se a gente tinha por volta de R$ 450/500 milhões de reais de caixa, a gente subiu para R$ 1,4 bilhão de reais no fechamento do segundo trimestre, justamente para fazer frente a incertezas e cenários que tínhamos pouca visibilidade naquele momento.

Em adição a isso, tivemos também um processo de ajuste na capacidade, de custos de produção, buscamos fazer, ao menos no primeiro momento, suspensões ou paralisações, postergações de alguns investimentos e gastos até termos a maior visibilidade. Certamente foi um processo difícil.

Agora, antes da questão financeira, a prioridade máxima foi nossos empregados, os cerca de 16 mil colaboradores ao redor do mundo. Tivemos muito foco também em termos os melhores processos e práticas, com todos os protocolos de saúde e segurança para os nossos funcionários.


E-Investidor -- De que forma a empresa coordenou esse processo ao redor do mundo inteiro, com os funcionários em home office?

Ito -- Fazer isso de forma coordenada nos 14 países do mundo em que estamos presentes, de forma organizada, demandou calls diários com as lideranças de finanças. Tudo para ir endereçando cada um desses pontos, aspectos de liquidez, posição de caixa e toda essa gestão global no meio de um processo de pandemia.

O home office acabou funcionando de forma bastante satisfatória, cada um em suas casa, mas ao mesmo tempo conseguindo fazendo uma gestão global de caixa bem conservadora e efetiva no final do dia.
Fonte: E-investidor/ O Estado de S. Paulo
Notícias de outros veículos são oferecidas como mera prestação de serviço
e não refletem necessariamente a visão da UDOP.
Mais Lidas