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Argentina vê complexo de soja comprometido pela desvalorização cambial, logística e coronavírus
Publicado em 20/05/2020 às 17h10
Enquanto o mercado discute quanto o Brasil ainda tem de soja para atender os mercados externo e interno e se a China comprará mais produto dos EUA, efetivamente, nos próximos meses, a Argentina amarga um dos piores momentos da história para a comercialização da oleaginosa.

Com uma safra que deverá ser concluída entre 51 e 53 milhões de toneladas, de acordo com estimativas de consultorias privadas, o produtor argentino acumula problemas cambiais, políticos, econômicos, logísticos e todos eles agravados pelos efeitos da pandemia do coronavírus.

Assim, embora a Argentina tenha se mostrado quase que às margens da dinâmica global do complexo soja nesta temporada, "ela sempre pode registrar um evento que tem capacidade de mudar todo o mercado", diz Gutierrez, e por isso precisa ser monitorada frequentemente.


RETENCIONES, CÂMBIO e POLÍTICA

Comercializando em dólar e com seus custos construídos na mesma moeda, os sojicultores sofrem com preços muito fracos e pouco estímulo de exportação por conta das retenciones, que seguem nos elevados 33%. Para farelo e óleo a tributação é a mesma, como explica Luiz Fernando Gutierrez, analista de mercado da Safras & Mercado, e para ambos, portanto, o mercado também não é dos melhores.

"A tributação atrapalha o complexo soja como um todo na Argentina", afirma o especialista. E o consultor em agronegócios Ênio Fernandes, da Terra Agronegócios, complementa afirmando que a atual condição só faz deixar as novas vendas ainda mais lentas.

Até o dia 13 de maio, a Argentina já havia comercializado cerca de 22,3% de sua safra atual, contra 20,7% do mesmo período do ano anterior, contabilizando tanto negócios para exportação quanto no mercado interno.

Para Gutierrez, as exportações argentinas de soja em grão deverão ser menores neste ano, perto de 8 milhões de toneladas. Em 2019, foram 10,2 milhões, de acordo com dados oficiais do Ministério da Agricultura do país. "É importante lembrar que o ano comercial deles começa dois meses depois do início no Brasil, começando abril e sendo concluído em março", esclarece o analista.

Ao lado do peso que as taxações já provocam sobre os preços - e sobre o dia-a-dia do produtor argentino - há ainda a intensa desvalorização do peso em relação ao real. São cerca de 70 pesos no chamado ?´câmbio exportação?´ e 120 pesos para um dólar no câmbio regular.

E frente a isso, o analista de mercados agrícolas Pablo Adreani, da Argentina, afirmou em seu perfil no Twitter que "a soja de US$ 200,00 por tonelada já é uma realidade e só a China pode dá-la algum oxigênio. Com essa diferença cambial, o produtor não irá vender um quilo de soja. Considerando US$ 200,00 por tonelada, metade dos produtores perdem dinheiro".

Assim, com seus custos em dólares, ainda como explica Ênio Fernandes, o produtor segue com suas vendas cadenciadas, realizando-as quando da necessidade e oportunidade de empregar esses recursos na compra de algum insumo. "Com a situação atual, ele vende e faz o que com esse dinheiro? A desvalorização da moeda local é muito forte", diz. "Até mesmo financiar um produtor argentino neste momento traz um certo temor", completa.


LOGÍSTICA

O desestímulo para as exportações argentinas de soja e derivados se deu não só pelas questões econômicas, tributárias e cambiais, mas também logísticas. Os efeitos da pandemia do Covid-19 foram muito mais graves por lá do que no Brasil ou na Argentina, provocou logo no começo da quarentena o fechamento de plantas processadoras de soja e terminais portuários.

"Agora as coisas estão um pouco melhores, mas ainda há problemas em alguns locais que, aos poucos, estão voltando ao normal, alguns tabalhando com a capacidade reduzida. Mas portos foram fechados fechados, a produção e o escoamento foram afetados", diz o analista da Safras & Mercado.

E como se não bastasse, há ainda a seca dos rios Paraná e Uruguai, comprometendo ainda mais o escoamento da produção argentina. "E estamos falando de Rosário, o maior complexo portuário da Argentina, e passa soja paraguaia também por lá", relata Luiz Fernando Gutiterrez.

O nível das águas do rio Paraná estão nas mínimas em 50 anos, segundo informações reportadas pela agência de notícias Reuters, e já exigem que as barcaças com soja circulem com menor volume e em um ritmo mais lento, provocando, inclusive, atraso na entrega.
Carla Mendes
Fonte: Notícias Agrícolas
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